Raspar joelhos no asfalto com motos esportivas é realmente necessário?

Chega a ser preocupante andar nas estradas ou mesmo em pistas e dar de cara com uma quantidade grande de motociclistas fazendo um tremendo esforço, muito além do necessário, no pêndulo – ato de reposicionar o corpo na moto para a parte interna da curva – , só para dar aquela raspada com a saboneteira no asfalto. O resultado é que em muitos casos acabam raspando não só os joelhos como também o corpo todo…

Precisa disso tudo? No pêndulo desloco mais o tronco ou o quadril? Abro a perna toda ou deixo mais perto do tanque? Tem sempre que arrastar a saboneteira no chão? Se não raspar serei um piloto ruim? Vamos em frente para esclarecer essas e outras dúvidas.

Recentemente vi o vídeo de um piloto americano raspando o capacete em um circuito, mas aí vem a pergunta: qual a necessidade disso? Na prática, no dia-a-dia, nas ruas e rodovias, é questão plenamente de satisfação pessoal, de prazer, pois para um motociclista raspar a saboneteira é, mal comparando, como fazer um gol no jogo de futebol. A técnica serve efetivamente em autódromos, em corridas, quando se busca o limite máximo da motocicleta, na disputa contra o relógio e os oponentes.

Em uma curva, por atuação de forças da física, a tendência do conjunto moto-piloto é continuar na vertical e seguindo a trajetória em linha reta, devido ao efeito giroscópico provocado pela rotação das rodas, passando a sensação ser jogado para fora da curva, por isso a necessidade de pendular e inclinar a moto, distribuindo o peso, deslocando o centro de gravidade e favorecendo o contorno do traçado.

O pêndulo excessivo obriga o piloto a fazer um esforço maior para voltar à posição, o que muitas vezes faz a moto balançar, desestabilizando o curso. A intensidade do pêndulo e necessidade de raspar a saboneteira dependem de uma série de variáveis, que incluem peso e ciclística da moto, peso e tamanho do piloto, velocidade e ângulo da curva.

Existe uma regra básica no pêndulo onde o limite para o deslocamento do quadril é quando a metade da bunda (divisão entre as bandas da esquerda e da direita… rs) chega no final da borda do banco da moto, mais que isso, está exagerando, e o tronco vai de acordo com a necessidade. Pilotos mais leves tendem a botar cabeça e tronco bem pra fora da moto.

Um fator essencial, que muitos desprezam ou simplesmente não tem a informação, é que nem todo piloto, por mais técnica que tenha, deverá raspar o joelho sempre. Eu por exemplo, com 1,95m de altura e longas pernas, tenho uma facilidade extrema de raspar, mas pouco o faço, por pura falta de necessidade.

A abertura da perna atua como indicador do grau de inclinação do conjunto moto-piloto, onde se o joelho toca no asfalto com a perna bem aberta indica que a moto ainda tem margem para inclinar mais e se estiver com a perna bem próxima do tanque indica que está com muita inclinação e perto do limite.

““Na verdade os pilotos usam o joelho no asfalto apenas como referência para avaliar o ângulo de inclinação da moto em relação ao eixo vertical. Conforme a abertura da perna e o ponto onde o slider do macacão encosta no asfalto o piloto consegue avaliar se sua postura está correta, se está saindo muito ou pouco da moto. É apenas uma referência, mas também continua com a mesma função idealizada por Jarno Saarinen de jogar o centro de massa mais perto do asfalto possível”, comenta Tite Simões, proprietário e instrutor do curso de pilotagem SpeedMaster.

A ciclística das motos vem evoluindo tanto, junto com toda a tecnologia envolvida como suspensão, pneus e tudo mais, exigindo cada vem menos esforço do motociclista para contornar curvas com precisão. Quem já teve a oportunidade de pilotar esportivas produzidas até final da década de 90 sabe que o piloto precisava trabalhar um bocado no pêndulo para alcançar a inclinação ideal nas curvas, especialmente pelo peso das motocicletas, e dá-lhe saboneteira no chão para indicar até onde ir.

Para moto e piloto chegarem ao seu limite é importante sempre estar em local apropriado, um autódromo, respeitando as possibilidades do motociclista e da motocicleta. Inclinações como as alcançadas no MotoGP, por exemplo, são inatingíveis por motos de rua. O espanhol Jorge Lorenzo, por exemplo, na temporada 2013 chegou a 61º, um recorde no motociclismo mundial, enquanto que uma moto esportiva de rua chega no máximo aos 55º.

É uma prática prazerosa, mas envolve muitos riscos, e em algumas cidades, como no Rio de Janeiro, por exemplo, o uso de rodovias acaba sendo fortalecido pela ausência de um autódromo de fácil acesso, mas vale o esforço, pegue sua motocicleta, vá para o circuito mais próximo e curta as curvas com segurança.

Recomendo que busquem o aprimoramento de conhecimento e técnica, aprendendo a identificar os limites, seus e da motocicleta, cientes dos riscos do local ideal para a prática da pilotagem esportiva. Pilote sempre com responsabilidade e consciência, pensando nas consequências.

Assista à matéria exibida no programa Duas Rodas News:

Autor: Eduardo Azeredo

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Do Rio de Janeiro, há mais de 14 anos envolvido com o motociclismo, e atua como piloto de testes e jornalista motociclístico para diversos veículos de comunicação, em especial o Jornal Motocycle, Revista Torque, CarPoint News, entre outros, fazendo avaliações / testes de motocicletas e produzindo matérias a respeito do mundo duas rodas. Também apresentador do programa Duas Rodas News, na emissora Luau TV

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